
Ludwig Van Beethoven,
O da quinta mais famosa
Sinfonia, não dia da semana.
O da nona mais famosa,
Claro que sinfonia;
Não existe nona-feira.
O das sonatas mais perfeitas
(Isto é indiscutível)
O de atitude irascível
(O quanto? Indizível).
O seguidor de Mozart,
Que depois se desprendeu.
O de Fur Elise,
Não da música do gás!
O criador de Apassionata,
Modelo de busto de estátua.
O baixinho descabelado
De carranca fechada,
Se sentia amor não dizia,
A mão sempre esperta,
A boca sempre calada.
O de religião nobre
O de religião triste,
O de religião de artesão,
Daqueles que se dedica
Inteiramente, devoto,
A todo seu trabalho,
A todo seu ofício,
A toda sua paixão.
O de religião que não;
Poderia ser outra senão;
Como a de todos os gênios,
Como a de Nietzsche e de Platão
Como a de Wagner e Da Vinci:
A de empenho sem limite;
Nome: Voluntária Solidão.
O compositor da Eroica,
O compositor do Egmont,
O admirador de Goethe,
O filho prodigioso de Bonn.
Dele não se ouve as notas
Tende-se a devorá-las;
Sem ao menos perceber.
Tende-se ao Ser ouvinte
O Obscuro, O Taciturno,
O Noturno e O Diurno,
Tende-se ao tudo.
A toda aquela profundeza,
Inexprimível em palavra,
Absoluta em incerteza.
Leva-me todo para outro lugar
Enche-me de euforia e amor,
Entope-me de rubro fulgor,
Divide-me entre força e fraqueza.
Joga-me no abismo gutural:
De todo aquele sonho de ontem,
De toda emancipação da alma,
De todo desejo carnal,
De todas figuras pintadas em telas,
De todas aquelas aquarelas com musas brancas,
Carrega-me do leito do tangível-real
Ao alucinógeno do Beethoviano,
Uma montanha-russa sem fim
Sem ano, nem data de vencimento,
O irascível produziu o não vendável
Tudo aquilo que só se pode amar,
Tudo aquilo, apenas, que se admira,
Tudo aquilo que se respira
Em uma manhã fria de puro ar.
Dele veio tudo isso e algo além,
Todo esse devaneio e escapismo sagaz,
Ludwig, O Irascível,
Menino triste, filho de capataz,
Deixou de amar para produzir,
E de tanto, e de tanto em tanto
Transcendeu.
Para onde eu não sei,
Sei que tende ao infinito,
Como aqueles complicados
Cálculos de Física.
Como o amor de mãe para filho,
Ouso dizer que ele ousou
E ousou tanto, como cristão que era,
Sustentar-se senão em tudo, em Deus.
Na prática incansável,
Na magia do instinto nato,
Dizia-se tradutor das palavras do Senhor.
E se ele existe, eu não duvidaria,
Pois ainda estou para ouvir
Em algum dia de minha vida,
Algo que supere esta música
Devastadora, que leva tudo
Até aquilo que não se quer,
Até os raciocínios necessários.
Envolve tudo, em profusão de cores,
Engole roupas, cachecóis e blusas,
Destrói tudo que parece ter valor,
Faz aquela roupa cara, de tecido lindo,
Perder todo glamour.
Faz aquela seda, todo aquele ouro,
Faz tudo desaparecer.
Até a camisola de veludo,
Até o sapato de couro de cobra,
Ela sobrepuja tudo...
De dinheiro à menina florida,
De carro à formosa cadela,
E temo dizer, mas afirmo dizer:
É a musa seqüestradora
Do todo poderoso Ludwig Van,
É a música bandida do meu herói,
Do todo eternizado compositor,
Como já disse é inexprimível
Em palavras ou denotações,
Juro, de todo coração!
Então paro por aqui,
Antes que o leitor enlouqueça,
Antes que pire a minha e a sua cabeça,
Feliz Ano Novo e tudo de Bonn.




