domingo, 21 de dezembro de 2008

O Triunfo da Vontade


Sempre camuflado pela bandeira de liberdade, direitos igualitários e facilitação das relações entre nações, o conceito de globalização vem instalar-se como um pretexto para a hegemonia e reafirmação do status-quo. Mais que isso, vem ameaçar a soberania de outros países com a pérfida desculpa de livre comércio, universalização dos conceitos e, ainda, de fiscalização e combate ao terrorismo internacional e à produção de armas de destruição em massa.
O que facilmente se observa a respeito da onda de eufemismos descarados dos países privilegiados pelas livres fronteiras é que os únicos aspectos verdadeiramente universalizados dizem respeito aos interesses do mais forte, assim como à sua cultura, ideologia e a seus produtos.
Os EUA, em não se importando devidamente com problemas que não só permeiam, mas fazem do continente africano o mais miserável do mundo, como a extrema pobreza, fome e proliferação de doenças, acabam por contradizer e, conseqüentemente, invalidar tal conceito de universalização. Por outro lado, se a África fosse grande fonte de lucro para os norte-americanos, quem sabe eles não se comoveriam, por exemplo, com a tão flagelada e subnutrida nação da Eritréia. Em outras palavras, o ocidente só compartilha, ou melhor, “universaliza” o que é de interesse lucrativo, hegemônico e o que há de pior: crises econômicas, caprichos desmedidos e poluição ambiental (como num grande paradoxo em que as grandes e poderosas nações socializam os problemas e monopolizam os benefícios).
A cada dia que passa, usufrui-se mais do ideal aristotélico de escravidão (claro que de uma maneira não explícita, mas propositalmente metamórfica), o que automaticamente nos afasta do ideal epicurista dos direitos humanos, da ética fundamentada na igualdade do homem perante seu “estatuto nato” de livre-arbítrio, sem delongas usurpadas por questões bélicas, territoriais ou metafísicas.
Willberforce fez nada mais que representar o ideal de universalização dos direitos em seu modo primário e verdadeiro, ramificado na pura filosofia dos direitos humanos consubstanciais. Pôs em prática a antes utopia dos escravizados ao inferir uma lei de liberdade a todos os homens (mesmo que ainda descriminados). Em um empirismo revolucionário, constatou que idéias podem virar fatos.
Certamente, essa essência de valores de alma superior existe e transcende rótulos por cor, credo ou etnia. No entanto, ela está perdida em um mar de interesses ou na pura retórica, como no Zaratustra de Nietzsche; interesses esses que sobrepujam a nobreza de espírito do ser humano, fatores de cunho material que nós, impregnados pela cultura do “ter”, cultivamos, ao invés de afastarmos.
Temos sorte por, em intervalos de séculos, surgirem personalidades destoantes que, na superfície de nossas banalidades egoísticas, acordam-nos para o que acontece lá fora. Assim fez Willberforce e seus companheiros de luta, Joana D’Arc. e até mesmo William Wallace.
Uma vez que somos números com dólares no bolso e não mais seres de carne e osso, estamos sujeitos a uma inércia coagida por fatalidades. Já não somos vistos como unidades singulares, mas como grupos ou tribos que tendem a comprar este ou aquele produto. Tornamo-nos, portanto, bonecos de ventríloquo (regidos pela compra), voláteis, à mercê de qualquer crise econômica.
Sobre essa ótica mercantilista, somos envoltos em marasmo cômodo e cego que não contesta; que vê, mas não enxerga; que escuta, mas não ouve.
Em suma, a escolha é dicotomicamente simples: optamos por fazer alguma diferença, ainda que inseridos neste niilismo da sociedade pós-moderna (e até mesmo em mínimas atitudes diplomáticas, pois a luta não é só armada), ou então, como que num dejà-vu do calvário de nosso famoso Senhor cristão, lavamos a mão como Pilatos, a esperar, comodamente, aquele herói de alma nobre que nos irá tirar da caverna de Platão.

Um comentário:

Daniel Serrano disse...

tenho passado por uma não tão estranha crise de caráter um tanto quanto parnasiano: tender a ver em tudo a forma, tender ao som. Isso tem até me atormentado, pois fico a buscar sinais disso em todo tipo de coisa. Curioso soar justo seu texto, tão assim bem posicionado, poético. E, desta vez, não pelo som, que você vem dominando com habilidade nos poemas, inclusive no mais recente sobre Beethoven, mas por essa aura poética que envolve a combinação de palavras e que prescinde a rima, embora custe-me isso a dizer. Não vejo porque pensar que o texto me desagradria; concordo-lhe, mas tampouco me ponho apassivado diante dele. É denso, há coisas que ainda (espero) não sonham minha vã filosofia, mas do que captei, captei com aceno de cabeça, muito bem, estou a concordar inteiramente.

um forte abraço. e siga produzindo.