terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Protesto.


Faço um protesto.
Por que não se fala em Joseph Goebbels quando se trata do assunto propaganda?
Sim, ele foi um nazista. Sim, ele foi um fanático e provavelmente sabia de tudo o que ocorria nos campos de extermínio. Em Dachau, Treblinka e Auchwitz. Talvez até soubesse que Hitler tivesse sífilis , quem sabe?!
Eu, aspirante a publicitário- cursando obviamente publicidade- em alguma faculdade não muito distinta por seus intelectos, digo e afirmo com toda certeza que não só Joseph Goebbels, como Adolf Hitler e "sua" brilhante cinematógrafa Leni Riefenstahl foram os pioneiros da propaganda totalitária. Não devia-se dar a eles o crédito por isto? Porque afinal, toda nossa propaganda de massa, vide Casas Bahia e principalmente os maiores cultos ritualísticos de lavagem cerebral propagados por shows de pulanças-mil transmitidas pela Rede Globo, derivam nada mais do que destes pioneiros nazi-fascistas dos quais falo agora.
A culpa desta hipocrisia toda é a de não saberem separar a personalidade individual do profissionalismo por si só.
Goebbels com certeza foi um dos maiores demagogos depois de Hitler, no entanto, temos de reconhecer sua competência quanto à propaganda dirigida à população. Ele sistematizou a padronização de constante exposição imagética e audiovisual que usamos hoje. Também foi ele que estabeleceu as bases da propagação de mitos de valores agregados, aos quais deviam-se 'obedecer'. Foi Goebbels quem conseguiu anexar a Áustria com o uso apenas de uma arma: a propaganda.
Leni Riefenstahl, com genialidade visionária anunciou um estilo de grandeza cinematográfica bem antes do "Cidadão Kane",de Orson Welles. E, apesar disto, este gênio feminino foi um mártir. Dizia-se dela que era 'a favorita do fuhrer' sem ao menos saberem que ela nem pertencia ao partido.
Claro...é muito mais agradável dizer que a 'elevação do líder', sugerida por um movimento de câmera peculiar, foi projetada por um prodígio estadounidense, convenientemente aliado, e não parte do 'eixo do mal' como assim foi nomeado a tríplice aliança Japão-Itália-Alemanha. Evidente que Orson Welles foi um gênio , mas não pertence a ele o crédito da inauguração do cinema grandioso, por assim dizer. Todavia, é bem menos bélico à ocasião citá-lo, ao invés de ser citada uma pessoa possivelmente ligada ao nazismo.
Diga-me, qual o problema de dar a Hitler o pequeno mérito de ter projetado o fusca, que anda muito bem diga-se de passagem, o carro mais popular de todos os tempos?! Dando a ele este emblema de Senhor dos Fuscas não estaríamos exaltando sua ideologia execrável , mas simplesmente o estaríamos reconhecendo por ser um bom planejador, assim como era bom pintor, orador e genocida (este último não é um elogio, definitivamente).
Em dois anos de curso na faculdade de publicidade nunca sequer ouvi falar de Joseph Goebbels. E assim, eu me pergunto: Por que? E eu mesmo respondo: Porque ele fez parte de um passado que quer ser esquecido. É inconveniente mencioná-lo. É um tabu dos mais hipócritas.
O mais conveniente é falar do grande Washington Olivetto, aquela múmia sem expressão, de ego gigante, sempre obcecado pela 'grande idéia'. Porque ele sim é aceito e conveniente aos ouvidos mais sensíveis.
O que não se vê nessa infinidade de hipocrisia é que o próprio grande senhor da W/Brazil, este velho arrogante, estudou e muito as táticas propagandísticas das ditaduras totalitárias, e, portanto, com certeza, Joseph Goebbels.
Não tiro o mérito profissional do velho sem sal, ele é extraordinário profissional. Apenas não simpatizo com sua personalidade soberba, mas sei separar seu profissionalismo excepcional de seu 'jeito de ser'. Temos de nos treinar para fazer isto, é de vital importância para o discernimento dos fatos.
Digo, portanto, que somos um tanto ingratos quanto à divisão das patentes precursoras da publicidade de nossos tempos.
Todos ficariam assustados ao saberem que a primeira citação dando à publicidade sua devida importância como meio de persuasão foi citada por Adolf Hitler, em seu Mein Kampf.
Claro...ninguém teria a audácia de admitir que um dos maiores crápulas de todos os tempos foi o criador da publicidade dirigida às massas. É muito mais fácil mencionar algum inglês, neoliberal , aceito no âmbito social, que com uma luz divina transformou papel em panfleto de loja de charutos.
Querendo ou não, foi um austríaco, de cabelo lambido repartido para a esquerda e com um bigode digno de chacotas que disse algo como "Devemos dar grande atenção aos anúncios e propagandas do Reich. Elas são de vital importância para a propagação da mensagem ideológica de nosso partido, assim como de nossos valores raciais e morais. Elas devem ser dirigidas às massas, e não aos intelectuais. Estes saberão filtrar nossas mensagens, eu não quero que elas sejam filtradas, mas sim absorvidas."
Mas que ironia...quem diria que Chiclete com Banana, Big Brother e Ivete Sangalo teriam a ver com Segunda Guerra Mundial, Rede Globo e líderes nazistas? Aposto que a grande maioria nem sabe que A Toda Poderosa Rede Globo usou de alguns dos artefatos nazi-propagadísticos para apoiar a ditadura de Vargas.
Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.
Cá estou eu defendendo o mérito de alguns destes inventores, precursores ou criadores, porém eu mesmo não sei se os agradeço por terem inaugurado tal estilo de propaganda ou se apenas lastimo. Porque se foram eles os culpados-póstumos por toda essa banalização macaquética de "quero ver todo mundo pulando vai , vai , vai , com as mãozinhas para cima", com certeza não vejo esta invenção publicitária com bons olhos. Mas...por outro lado, sinto-me no dever de esclarecer a situação e pôr os troféus em suas devidas estantes.
Ao darmos os méritos às pessoas erradas nos enganamos e negamos a própria história evolutiva da criação publicitária e de suas constituintes.
Saber quais são as raízes de nossa publicidade contemporânea é nada mais do que nosso dever como futuros profissionais da área da comunicação social. Devemos nos manter informados do que é extremamente relevante para a nossa profissão.
Paremos de fingir que tudo se resume a uma só agência ou pessoa. Passemos a pensar mais como Darwin: como se a publicidade fosse uma espécie em evolução.
Devemos deixar de ser portadores desta automaticidade passiva quanto às origens da propaganda. Chega de teoria da espontaneidade. Chega de determinismo. Tudo tem uma origem. Mesmo que ela seja propositalmente e sistematicamente negada e omitida.
Se os professores doutores acham incoveniente dizer a verdade às suas aluninhas abastadas de colar de pérolas e bolsas Louis-Vuitton, que pelo menos o resto saiba que estão sendo enganados, ou melhor...negligenciados.
Saibamos diferenciar a derivação e a reprodução do fator da criação nata.
Comecemos a treinar nossas consciências a separar profissionalismo, de caráter moral ou ideológico, de gostos pessoais ou de adjetivos adjacentes que concernem à outra esfera que não a profissional.
Em outras palavras: genocidas podem ser geniais publicitários, assim como Católicos Apostólicos Romanos podem ser prodigiosos assassinos (vide Papa Pio XII).
Agora percebo que exprimo neste penúltimo parágrafo uma das maiores questões do filósofo alemão mais bigodudo da nossa história: a tão não absoluta transvaloração de valores.
É exatamente isto. É disto que estou falando.
Vejamos as coisas por outros ângulos. Não podemos nos contentar com pouco.
Todos sabemos que Hitler era um assassino e Goebbels um lunático anti-semita. Isto já é de senso comum.
Cabe a nós perguntar: e o que mais?!...

3 comentários:

Daniel Serrano disse...

Concordo em grande parte; os argumentos você colocou com maestria.

Daniel Serrano disse...

Me peguei pensando no tema.
Há propagandas em que reconheço nível artístico bastante elevado, o que sempre acaba-me por decepcionar-me ao final, tendo que reconhecer que, mais que artístico, aquele reclama servia a um objeto: a construção de uma marca. Tendendo a pensar de maneira meio maquiavélica, no entanto, rumino não seria seria a propaganda, a exemplo da política para ele, algo amoral. Ou seja, para a propaganda, não há submissão à ética. Esse pensamento me alivia as dúvidas e acaba-me por me fazer sentido, justamente a alguém que tanto vai contra a tal da arte engajada, que, a mim, beira a não-arte.
No entanto, quando vejo um comercial das casas bahia, exemplo mais rotundo dessa tal lavagem cerebral, penso que não há nada lá que tenha ponta bela ou artística. Tudo, ali, está em função da venda, da venda e da venda. Apenas. Com isso, pego-me de novo pensando: ora, será mesmo possível separar ética de publicidade. Se nasce a publicidade a fim de vender, já está ela, necessariamente, dotada de um fim, algo que a arte, veementemente, deve rejeitar.
Esses dilemas fazem-me analisar por dois lados esse seu post: de um, o concordo, é verdade, bem certo que a propaganda nazista, se mesmo analisada, vai se mostrar uma das mesmo mais eficientes. A questão é que a eficiência, em alguns casos, nem sempre está lado a lado de valores éticos importantes, o que faz com que essa mesma eficiência torne-se em puro repúdio. Segue-me? Pego-me assim na dúvida. Seria interessante continuar a discussão.

Anônimo disse...

exelente texto,de fato goebbels era um gênio em materia de propaganda, mesmo sendo o fanatico que envenenou seu filhos, a cineasta Leni Riefenstahl fez um trabalho fabuloso, em destaque O Triunfo da Vontade (Triumph des Willens),
que é impressionante.